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Um palerma nunca vem só

 Advertência: o texto que se segue tem personagens reais. Tentarei não ser ofensivo até porque o objectivo do texto é demonstrar o quanto nos podemos deixar perder para lugares que não são nossos ou para nós. Dito de outro modo, é preciso cuidado. Contudo não garanto que a criatura aqui visada não se ofenda com tal texto. 


Costumo dizer que Novembro e Maio são, regra geral, para mim, meses em que algo acontece de modo a representar uma ruptura com o que até então havia. Este Maio não foi uma excepção e haveria de culminar em um ano e meio de uma das paixões mais patéticas da minha vida. 


Foi precisamente em Maio que, após uma breve relação com um tipo que era saltimbanco, decidi que era hora de esquecer esse triste episódio e partir para outra. O saltimbanco era demasiado simplório e sofria de amnésia. Além de que, muito provavelmente, vinha carregado de uma série de outras maleitas. Não por mim mas por tal criatura que se achou no alto do seu palanque em muito superior. Ainda bem. 

Contudo, quis o acaso que passasse de um saltimbanco para uma espécie de fotógrafo de revistas cor de rosa. Uma criatura absolutamente encantadora à primeira vista. 

Com o tempo claro veio a revelar-se um filho da puta de primeira.

Não pensem que isto está mais resolvido. Pelo contrário. Ficou bem claro desde o início que aquela espécie de esperas entre encontros não poderia ser para mim. Além disso, neste campo, hoje estou bastante melhor (meu querido menino). 

Isto é apenas para rematar a única ponta do nó que pudesse estar solta. O fotógrafo do social era na verdade uma miragem. Tal como nas do deserto, ao chegarmos perto vemos que nada resta. Contudo, por causa desse episódio, andei ali a achar que me havia de tornar numa espécie que nunca fui: oca e fútil. Tal como a criatura, cima profundidade não ultrapassa a de um mero suspiro. 

Isto para dizer que acho que não precisamos de pintar tudo a preto e branco. Nem a sépia. Às vezes a melancolia também existe nas paisagens mais coloridas. Já sabemos também que a vida será sempre uma coisa mais ou menos e que as excitações excessivas, mesmo quando necessárias, são como um bolo que levou demasiado açúcar. Um desequilíbrio total. Agora, de todo o modo, não precisamos de ser aquilo que não somos e no meu caso, não preciso de ser oco, vazio e fútil como as criaturas acima mencionadas. 

Mesmo fazendo "meal prep" e mesmo gostando de robots de cozinha. E até encontrando um amor manso, tranquilo que nos embala a alma nas noites de tempestade. 

E que bem sabe. Os palermas ficaram-se por aqueles dois e todo o séquito que lhes antecedeu. Dito isto, continuarei a ser esta coisa morna e por vezes triste que também sou. E isso aborrece-me imenso. Tal como, presumo, a quem me ler. 

Tchau.

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