Digo-vos, leiam os cadernos com a máxima atenção que possam atribuir. Vou partilhar apenas a parte mais biográfica.
Nasci para os números mas confundi-me com as letras. Não com todas mas com aquelas que falavam mais perto do sentimento. Escolhi a poesia porque me permitia fazer contas. E porque nessas contas conseguia contabilizar a perda de Matilde.
Quando me mudei para Porto Oco, já ela era uma memória e eu um homem das letras. Na minha mente continuava a escrevinhar tudo em cadernos quadriculados. As contas do mês, as despesas, os balanços. No meu corpo, o mal estar da ausência fazia-me caminhar ao longo do velho pontão de pedra. Caminhava como se não pudesse traduzir nada daquilo em letras ou em números. Nunca fui de caminhar. Tenho pés sensíveis e delicados. Femininos, dizia-me Matilde. Tudo porque ao contrário dos outros, usava laços e lenços. Ainda os uso, sentado na poltrona enquanto escrevo versos. Iniciei este
Rosto sereno,
Não o terminei porque me ia esquecendo da serenidade do teu rosto. Passeei novamente pelo pontão e, uma vez mais, constatei como este mar que me parece infinito ao longe, tem o seu contrário no partir das ondas. Como a tua memória que um dia é apenas isso. Uma indefinição.
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