Digo-vos, leiam os cadernos com a máxima atenção que possam atribuir. Vou partilhar apenas a parte mais biográfica. Nasci para os números mas confundi-me com as letras. Não com todas mas com aquelas que falavam mais perto do sentimento. Escolhi a poesia porque me permitia fazer contas. E porque nessas contas conseguia contabilizar a perda de Matilde. Quando me mudei para Porto Oco, já ela era uma memória e eu um homem das letras. Na minha mente continuava a escrevinhar tudo em cadernos quadriculados. As contas do mês, as despesas, os balanços. No meu corpo, o mal estar da ausência fazia-me caminhar ao longo do velho pontão de pedra. Caminhava como se não pudesse traduzir nada daquilo em letras ou em números. Nunca fui de caminhar. Tenho pés sensíveis e delicados. Femininos, dizia-me Matilde. Tudo porque ao contrário dos outros, usava laços e lenços. Ainda os uso, sentado na poltrona enquanto escrevo versos. Iniciei este Rosto sereno, Não o terminei porque me ia esquecendo da seren...
Intermináveis. De todas as tarefas programadas, não realizei nenhuma. Das não programadas, todas. Apenas um excerto que há dias o Afonso me enviou dos seus Cadernos. O mar ao fundo é triste mas imenso. Ao perto, finito. A rocha é negra. Este porto é inseguro. Estou aqui. Notei a secura. E sentei-me a pensar nisto até hoje. Agora tenho de ir fazer o almoço.