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Mensagens

A mostrar mensagens de maio, 2017

Dados

Sebastião lançou os dados. Um conjunto de quatro. Das suas mãos pequeninas saiu uma explosão de cores que encantou David. Azul, amarelo, verde, rosa. Feitas as contas, continuava em jogo. Depois a vez de David. Queria ter a mesma agilidade de Sebastião, a mesma desenvoltura. E que saísse a mesma sequência. Azul, amarelo, preto, verde. Não, já não podia continuar em jogo. Sebastião ganhava. Porque perco sempre Sebastião? Mesmo na bola. Se chutam para a baliza vou sempre no sentido contrário. Oh, isso é porque és um trapalhão. E nos dados, sou trapalhão? Nos dados é uma questão de sorte David. Então sou trapalhão e azarento... Sebastião sorria. Como não compreender aquele desabafo. Pois é assim a vida meu amigo. Sabemos lá. Eu também perco. Há dias no copo perdi. E agora posso perder. Queres ver? Voltou a agitar os dados com as suas mãos pequeninas. Lançou-os com a mesma força. Azul, amarelo, verde, rosa. Bem...esta não será exemplo. Achas que Deus gosta mais de mim do que de t...

Ninguém lhes diz nada

Eles também levantam poeira quando jogam à bola e ninguém lhes diz isso. Que levantam poeira e sujam os sapatos. Que as obras nunca mais terminam. Que são órfãos. Salomão relembra-lhe do outro mundo a que acede. Limpa as suas lágrimas. Eles não têm jardins de ruibarbos. Que egoísta sou, Salomão. Olha novamente para o mundo exterior.  Moisés, o velho leiteiro, chuta a bola. Vem cansado. De pau e duas bilhas aos ombros. Sorri sempre. Mesmo com aquele peso. Menino, porque não brincas com eles? Tens pernas longas, podias rematar muito longe. Quão longe senhor Moisés? Longe para a baliza, ora. Sei...e é naquele exacto momento que percebe a lógica do jogo. Rematar à baliza. Para quê tanto trabalho para rematar à baliza? O homem já vai longe. Afinal as bilhas estão vazias.Já pode caminhar mais depressa. Ainda se penitencia pela disenteria causada pelo leite estragado. Por isso quando pode caminha veloz para não recordar. E que pode fazer? É o ofício que tem desde sempre. Da...

Por onde andas, David?

    Um passo pequeno controlado. Tem as pernas em caniços. Tremelicam no imaginário dos homens robustos que o vêem. Tremelicam frágeis só pela aparência. Nos ombros carrega água. Muito mais peso do que as pernas juntas. Ou muito menos, no seu imaginário. Porque ali vai com o seu passinho muito certo. Sempre decidido. E sorrindo. Ou é isto que causa mais admiração nos homens robustos?   Levanta-se a poeira da estrada. Quanto tempo para que a venham arranjar. Especialmente agora que o sol a queima. Seria melhor. Para David é igual. O passo é o mesmo e consegue deleitar-se nos fumos de pó que os seus pés, mais pesados que as pernas, levantam a cada passo. Alegra-se por isso. Como em quase nada se alegra. Pouco do mundo em verdade. Na sua cabeça a história é contada de outra maneira.    Perto de casa, já com as sapatilhas castanhas, encardidas, Noémia sorri-lhe. Que carinho traz, protector, por aquele menino tão fraco. Mãe órfã gera filho órfão. Ass...

We delight...

Seria tão mais fácil desligar. Sem saber que matemática nenhuma do mundo pode resolver por equações aquilo que não existe. Até os números têm uma essência e o amor não. Ou se tem foge.  Lembras-te, Josué? Quando te dizia antes de lançar o tarot, que a única regra universalmente válida era a do amor? Pois continuo a dizer que sim. Que é a única regra universalmente válida. Mesmo que possamos estar fora do universo por algum tempo, numas férias algures noutro tipo de construção que não se chame universo.

Remember back in the day, Pembie?

  We'd always be served a palate cleanser at Sunday supper. Duas conclusões da experiência do amor. Primeiro, a mais fodida. Ter memórias. Segundo, que tem a ver com fodido. Sentir aquele frio de algo ter saído do nosso corpo.  De não haver abraços, beijos que arrepiam. Cheiros de pele e melodias doces escutadas ao ouvido. Se calhar é só uma conclusão. As memórias lixam isto tudo. Depois chegam, sempre com os seus ponchos andinos, os militantes do Aceitaguardaascoisasboasemoveon e bem tentam vir dar lições sobre a experiência do amor. Não há nada, contudo, que se aprenda com isto. Se é do coração não serve para aprender. Apenas para endurecer. Aprendemos com a cabeça e o amor não lhe pertence. Além disso o coração é apenas aquele órgão que entope a cada cigarro que se fuma por isso o coração e o amor são pura ficção. Por isso não existe verdadeiramente.  E se existiu alguma vez é porque estivemos loucos. Agora sim, duas concl...

Mais uma página teen...super teen

Aceitar que o que foi já foi e não é mais.  Pode parecer básico, pouco evoluído, nada ascendido mas é mesmo isso. E o que não é mais é só isso. Agora tempo para coisas novas. De preferência que não o amor porque nele não acredito mais. Nem na rejeição. Apenas nesta capacidade de estar no mundo. De estar e o mundo a correr por nós. I'm a teenager again. I'm back!