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Mensagens

A mostrar mensagens de 2017

Tinta escassa

Para contar do desespero. Das lágrimas que caíam na noite condutora. Dos deuses mudos ante o planetário. Das árvores em maternal amparo. De uma memória de beijos e arrepios.  Para então permanecer na indiferença dos dias. Nas ausências mais e mais espaçadas. Do reencontro em Maio. Na feira de Maio. Como de outra maneira não pudesse ser.  A tinta será sempre escassa para descrever o ciclo. Das árvores serenas aos troncos hostis. Das preces desesperadas pela luz de Vénus. E afinal Vénus sem luz que agitou os seus enganos como a folhagem ante o céu.  De me proferirem palavras de ligação, o inferno e o céu. De estar ali à espera que um sopro me agarrasse, devolvesse as colinas do infinito. De chorar lágrimas ainda mais dolorosas e o universo inteiro deixar de conspirar. Respirar nos dias, chorar nas noites estreladas no planetário de S. Pedro. De ver o relento da noite, muda e o breu rompido por clarões celestes. A conjunção gritante do nada que somos e...

Estaria certo, na mesma

Contar uma pequena história sem gente. Apenas sobre as coisas colocadas na sua condição estática. Restaria testemunhar-lhes a passagem do tempo. A corrosão, oxidação. Ainda assim seria interessante, sem testemunho humano, sem dedadas coladas nas teclas do piano. Violeta que dirá de mim? Se matarmos as gentes qur por aqui circulam. Se as eliminarmos uma por uma. Apenas um tempo sobre as coisas. Só isso. Nada mais. Olvidando claro a mão humana que as criou. Que importa?

Questão de ritmo

"Matias, uno de tantos inocentes pajaritos"... O ritmo e o som. O terreiro, a poeira. Uma terra distante. Em direcção ao inalcançável. Para lá do mapa. Não era Matias. Era David. Era. Porque o ritmo perdeu-se e a ronda passou a ser sobre outras pessoas. Sobre...

Dados

Sebastião lançou os dados. Um conjunto de quatro. Das suas mãos pequeninas saiu uma explosão de cores que encantou David. Azul, amarelo, verde, rosa. Feitas as contas, continuava em jogo. Depois a vez de David. Queria ter a mesma agilidade de Sebastião, a mesma desenvoltura. E que saísse a mesma sequência. Azul, amarelo, preto, verde. Não, já não podia continuar em jogo. Sebastião ganhava. Porque perco sempre Sebastião? Mesmo na bola. Se chutam para a baliza vou sempre no sentido contrário. Oh, isso é porque és um trapalhão. E nos dados, sou trapalhão? Nos dados é uma questão de sorte David. Então sou trapalhão e azarento... Sebastião sorria. Como não compreender aquele desabafo. Pois é assim a vida meu amigo. Sabemos lá. Eu também perco. Há dias no copo perdi. E agora posso perder. Queres ver? Voltou a agitar os dados com as suas mãos pequeninas. Lançou-os com a mesma força. Azul, amarelo, verde, rosa. Bem...esta não será exemplo. Achas que Deus gosta mais de mim do que de t...

Ninguém lhes diz nada

Eles também levantam poeira quando jogam à bola e ninguém lhes diz isso. Que levantam poeira e sujam os sapatos. Que as obras nunca mais terminam. Que são órfãos. Salomão relembra-lhe do outro mundo a que acede. Limpa as suas lágrimas. Eles não têm jardins de ruibarbos. Que egoísta sou, Salomão. Olha novamente para o mundo exterior.  Moisés, o velho leiteiro, chuta a bola. Vem cansado. De pau e duas bilhas aos ombros. Sorri sempre. Mesmo com aquele peso. Menino, porque não brincas com eles? Tens pernas longas, podias rematar muito longe. Quão longe senhor Moisés? Longe para a baliza, ora. Sei...e é naquele exacto momento que percebe a lógica do jogo. Rematar à baliza. Para quê tanto trabalho para rematar à baliza? O homem já vai longe. Afinal as bilhas estão vazias.Já pode caminhar mais depressa. Ainda se penitencia pela disenteria causada pelo leite estragado. Por isso quando pode caminha veloz para não recordar. E que pode fazer? É o ofício que tem desde sempre. Da...

Por onde andas, David?

    Um passo pequeno controlado. Tem as pernas em caniços. Tremelicam no imaginário dos homens robustos que o vêem. Tremelicam frágeis só pela aparência. Nos ombros carrega água. Muito mais peso do que as pernas juntas. Ou muito menos, no seu imaginário. Porque ali vai com o seu passinho muito certo. Sempre decidido. E sorrindo. Ou é isto que causa mais admiração nos homens robustos?   Levanta-se a poeira da estrada. Quanto tempo para que a venham arranjar. Especialmente agora que o sol a queima. Seria melhor. Para David é igual. O passo é o mesmo e consegue deleitar-se nos fumos de pó que os seus pés, mais pesados que as pernas, levantam a cada passo. Alegra-se por isso. Como em quase nada se alegra. Pouco do mundo em verdade. Na sua cabeça a história é contada de outra maneira.    Perto de casa, já com as sapatilhas castanhas, encardidas, Noémia sorri-lhe. Que carinho traz, protector, por aquele menino tão fraco. Mãe órfã gera filho órfão. Ass...

We delight...

Seria tão mais fácil desligar. Sem saber que matemática nenhuma do mundo pode resolver por equações aquilo que não existe. Até os números têm uma essência e o amor não. Ou se tem foge.  Lembras-te, Josué? Quando te dizia antes de lançar o tarot, que a única regra universalmente válida era a do amor? Pois continuo a dizer que sim. Que é a única regra universalmente válida. Mesmo que possamos estar fora do universo por algum tempo, numas férias algures noutro tipo de construção que não se chame universo.

Remember back in the day, Pembie?

  We'd always be served a palate cleanser at Sunday supper. Duas conclusões da experiência do amor. Primeiro, a mais fodida. Ter memórias. Segundo, que tem a ver com fodido. Sentir aquele frio de algo ter saído do nosso corpo.  De não haver abraços, beijos que arrepiam. Cheiros de pele e melodias doces escutadas ao ouvido. Se calhar é só uma conclusão. As memórias lixam isto tudo. Depois chegam, sempre com os seus ponchos andinos, os militantes do Aceitaguardaascoisasboasemoveon e bem tentam vir dar lições sobre a experiência do amor. Não há nada, contudo, que se aprenda com isto. Se é do coração não serve para aprender. Apenas para endurecer. Aprendemos com a cabeça e o amor não lhe pertence. Além disso o coração é apenas aquele órgão que entope a cada cigarro que se fuma por isso o coração e o amor são pura ficção. Por isso não existe verdadeiramente.  E se existiu alguma vez é porque estivemos loucos. Agora sim, duas concl...

Mais uma página teen...super teen

Aceitar que o que foi já foi e não é mais.  Pode parecer básico, pouco evoluído, nada ascendido mas é mesmo isso. E o que não é mais é só isso. Agora tempo para coisas novas. De preferência que não o amor porque nele não acredito mais. Nem na rejeição. Apenas nesta capacidade de estar no mundo. De estar e o mundo a correr por nós. I'm a teenager again. I'm back!

Horário de Fecho

É de um egoísmo absurdo o que vou dizer mas das coisas que mais odeio é constatar que os lugares têm horário de fecho e de funcionamento. E se me apetecer ler o horóscopo que está na secção de revistas de um supermercado às quatro da manhã? Quando voltar a ser miúdo nas minhas brincadeiras vou dizer, Quando for grande vou ter um supermercado que está sempre aberto. E ao mesmo tempo vou ser veterinário, astronauta e, quem sabe, diplomata. Entre este mundo e o outro.  Como marxista acredito no descanso dos trabalhadores. Claro que acredito. Por isso disse que era de um egoísmo absoluto. Estar à espera de ler o horóscopo às quatro da manhã e na internet não é a mesma coisa. Lá se vai a dialéctica material. Juntamente com o Lipovestky. Quem se importa com o que ele diz hoje em dia? Aqui ponho a minha cunha nas aceitações passivas budistas, temos de aceitar as coisas como elas são e elas neste momento são produto de uma sociedade hedonista... Para quê o espanto ...

Om...

Depois regressaria ao elemento alfa ou beta. Nunca sei. Não sou bom em realidades alternativas. Se existe a certa e a errada costumo intuir a errada. Recordo todos os pensamentos bélicos "tirar o bom do mau" e toda a sequenciação de construções mentais sobre o mesmo assunto. Recordo que não fui voluntário nessa escolha. E que não tenho tempo para ódio. Mas que ele existe e vem. Como a fome e a vontade de...bem, quem quer que leia isto sabe de que é a vontade. E depois o loop...de se estar ébrio. Em ilusões. Ver um filme e alguém dizer, "as memórias são ilusões". Pois então...de que me serve tudo isto. Ou ver o teu nome escrito, grafitado em paredes dispersas por esta dimensão. Certo...certo... Depois percorrer a secção de livros de auto-ajuda, desenvolvimento pessoal, ondas new age e ver tantas frases feitas juntas sobre o amor que poderia "acachapá-las" e dizer, isto é merda! Isto e tantas outras coisas. Como a felicidade dos livros de cul...

Diário de uma...adolescente?

Não vou compor isto e fingir que é um poema construído a partir da dor. Nem pensar nisso.  Vamos a isto: "Right in front of me..." (porque uma adolescente vai sempre buscar músicas românticas creio que um gay pode fazer o mesmo numa adolescência tardia). Recordando, Resumir três dores: partir um pé, entalar um polegar no carro, ouvir a expressão "excluído".  Todas doeram com a sua intensidade. A primeira menos, a segunda muito, a terceira mais ainda. Tirar-me o tapete e colocar-me no lugar da rejeição, ainda mais do que as três juntas. Constatar a indiferença, pior.  Não pode ter sido amor. Terá sido um devaneio passageiro.  Fase cínica: odiar o amor e todas as suas componentes. Preciso de estar de volta. Odiar o amor. Odiá-lo.  Amor e Ódio. Curioso. Podia transcrever uma frase feita sobre os dois parceiros desta viagem. Mas só diria. Adeus que já te foste.

Portal

Eu sei, Seryoga, abraços podem ser um portal para o infinito. Sentir primeiro o cheiro, a pele E só depois a alma a pulsar com toda a sua herança, carga, passado, reencarnação. Como andar numa chuva espaçada.  Cada pingo. Um golpe na alma. Primeiro na pele. Depois então no mais profundo. Cometo este equívoco quando digo, Quero só um abraço teu. Que os deuses nada têm que ver com isto. Pois sei que minto... Ou omito talvez, porque não minto por hábito  E esse pode bem ser um hábito de pessoas cheias de virtude. Omito, então. Que um abraço dele é um portal. E que sinto a falta de entrar nesse portal. Do mesmo modo que sinto a falta do seu cheiro, da sua pele, da sua alma. Cada coisa pela sua ordem. O primeiro sentido evidente de cada coisa. O que entra por nós sem pedir. O que pedimos E toda a consequência disso. E é isso, Seryoga. Cada coisa no seu espaço. "Keith Haring's Ghost"

Estender roupa do avesso

E lá estou eu.... A estender roupa do avesso e a sentir falta de um abraço teu novamente. Só teu. Não é poético. Nada é poético nisto. É demasiado humano, demasiado sensível. Mas não é para ser dos deuses. Não são para aqui chamados. Que fiquem lá com os seus propósitos. Isto são coisas mundanas. A roupa é daqui. Prefiro o mundo se assim for... E um abraço teu é o único mundo onde quero e posso estar.

Спутник - Considerações sobre a física

Se te dissesse como te chamas, радость . E um mundo inteiro atrás disso, onde cabem conceitos convergentes, palavras sobre as mesmas realidades. E não te enganes, está sempre bom para andar à deriva, especialmente hoje. Até porque não é o mar que se consome, é a encosta que se "braveia" e consome o mar. Alguma vez teria de ser.  Não, basta de promessas...de sonhos configurados sob a antena da realidade. Certo! Destino. E chamas-te радость , alegria suprema, coisa infindável. Monotonia.  De não ter coisa nenhuma. De se ser hipocondríaco de procurar médico para cada expectativa.  Ah, o corpo...letárgico e a alma como o mar e como a encosta. Só a encosta consome. O mar segue o seu corpo. E a náusea. De se ser marinheiro perdido na deriva.  Marinheiros não se perdem ou desencontram.  E nenhuma destas realidades importa quando o teu nome é радость ou coisa infindável. De beleza e monotonia. Pouco me faz saber. Pouco e...

Mais tarde...

Um Diálogo Imaginário se o Acaso o Permitisse e Ridendo Castigat Mores  (C. Sussurra como quem procura um lugar.) Agradeço deixar-me passar. Afinal interrompo o que não é ainda visível mas será por momentos. E quis o acaso que nos sentássemos aqui. Lado e a lado.  Tudo ficou perdido num mar perigoso. Bem perigoso este mar.  E presumo que não me pergunte se estamos num bom navio. Parece que somos todos, sem excepção, pilotos pouco experimentados...E sopra este vento tão forte que agora o contemplamos sem mais ousadia. Começa em breve. (I recolhe as pernas) Não é fácil perceber quem está ao nosso lado. Se temos visão periférica, esta apenas nos permite um longo alcance. Aqui mais perto é difícil de ver. E sinto que carrega consigo toda a mestria de comandar um navio. Um piloto experimentado, assim o diria. Ainda assim está demasiado vento, lá onde contemplamos. E torna-se tudo imperceptível. (C tira o casaco) E estes gritos? De...

Derivações

Irão, consequentemente, cair todos no mesmo limbo. Ou será questão de ser arrastado pela corrente, engolido por uma espécie de tempestade que não se contém.  Os subterrâneos de Quino inundaram-se. Talvez com eles se tenham redescoberto outras façanhas. Apenas isso. Dolores acenando. Quino submergindo. E afinal pensou sempre que ela não sobreviveria. E os abismos foram feitos daquela força de águas. É certo, um final. Um ponto final. Um chegar. Sempre certo. Depois tudo o que ocorre é somente, puta que pariu...

E não Steffano

Não é só de trazer o sóbrio ao lugar abstracto. Uma linha recta onde tudo é diagonal. Passadiços quase movediços e prédios desordenados. Nada disso. Mas é porque há aquela aura de antigamente. Aquele não haver mais, démodé que se respira deste lado. Aquela aura de que algo esteve no lugar. Não o invejo por isso. Bem pode ouvir os uivos do jogo do Corithians, o buzinão a caminho de Mogi das Cruzes. Indiferente. Todos os caminhos são sinuosos, mesmo os traços sóbrios no país tropical.  E no entanto, Steffano...

Carácter

Porque sempre faltará alguém para percorrer este caminho. Uma espécie de personalidade ambulante, vendida em bancas de rua ou carros enferrujados e mulheres que têm (demasiados) pêlos nos braços, nas pernas e em toda a condição e necessariamente lhes falta dentes, boca, voz E vendem personalidades. Assim penduradas em cabides, bengaleiros móveis, corrimões cujo sentido se desconhece.  Vendem-nas sim. Contrafeitos. A preço de defeito. À boca da fábrica. Pouco impermeáveis, etiquetas coladas, o barulho de fundo. E dir-me-ia também, "pastel de carne". Porque estamos em S. Paulo, em plena feira do Brás. E está húmido debaixo das nossas peles, enquanto olhamos ali as personalidades expostas, dependuradas em cabides frágeis e levamo-las connosco porque queremos Que o percurso tenha carácter e que alguém seja a continuidade de uma história que afinal não tem tempo, modo ou lugar. Apenas a existência circunscrita nas tais circunstâncias. Nos tais va...

Faz algum tempo

Ainda assim, poderei dizer-lhe Permanece quase tudo intacto... Mesmo as circunstâncias que se tenham alterado, não entendo bem por que razão. Se tudo começa com uma indagação... A variável E depois se chega à conclusão. E entre estes espaços distam quase uma vida inteira e outros milhares de circunstâncias, quase todas sem relevância. Só para se dizer, foi tudo intacto e intocável. Ainda assim.

Superstar

Ou o que quer que seja. Sempre preso nas suas circunstâncias.  E delas não sai. Porque primeiro descreve a circunstância depois permanece nela intacto como se nada alterasse a sua própria percepção.

Valsa

Eventualmente. Nunca vislumbrei de tão próximo a abóbada Celeste. A eventualidade de as estrelas serem feitas do mesmo que somos feitos. De reconhecer-te a melodia nos olhos, de sentir-te a delicadeza no gesto sereno e como sorrimos ante o céu estrelado. Eventualmente, O corpo se toca. Sente as minhas mãos geladas. Disse-lhe e ofereceu-me a face nun encosto celeste e o céu tornou-se próximo. O cheiro impregnado na minha circunstância. Que farei, que direi. Se apenas vislumbramos e nos deixamos embalar, numa valsa lenta, rápida ao sabor das estrelas.

Orientação dos gatos

Como Córtazar os descreveu. Dimitri veio acordar-me e era madrugada. Vinha sujo e agastado, de ferida quase aberta. Enxotei-o. No quarto de pensão que por vezes habito não é permitido ter gatos e cães. Apenas um altar aberto para um infinito de possibilidades.  Não volto a adormecer com ele aberto.  Não volto mesmo.