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Mensagens

A mostrar mensagens de novembro, 2016

Choveu em Cipriano

Naquela recordação de Inverno em pleno Julho, de hemisfério norte. Como se a partir dali a tristeza passasse a ser outra pessoa. A chuva, o vento, os buracos na estrada. Depois veio um certo alento,            ao vislumbrar Valquíria                                               E o significado de um toque de pele,                                                                 A circunstância de duas almas perdidas, Porque Valquíria também foi enganada pelos encantos da vida. E agora que usava o mesmo vestido púrpura de Regina, via-se em ...

Cipriano tinha um dilema

Porque a bom rigor era matemático, metódico e organizado. E não podia acreditar que a paixão pelo suicídio de Regina fosse uma obra do caos, da inteligência suprema do universo. Porque não acreditava que algo tão caótico e desordenado pudesse ter a inteligência suficiente para, contrariando os números, as probabilidades e as estatísticas, ser capaz de juntar duas pessoas numa espécie de percurso pedestre numa multidão incontrolável de gente e circunstâncias.  Da mesma maneira que não acreditava no amor e, em especial, no amor de Valquíria, mas como o Gengè, de Pirandello, sentia que de algum modo precisava de começar a encontrar alguém que lhe dissesse que o seu nariz pendia para a direita ou para a esquerda ou que simplesmente o relembrasse que, tal como a personagem, não se conseguiria ver a si mesmo, ausente de si mesmo.  Por isso estava com Valquíria e com aquela justificação calou Gustavo que se mascarava, frequentemente, de frequentador assíduo de pastel...

O comandante morreu

Não sei o que pensar. A nostalgia da história pode mascarar alguns factos. Como as grevistas que vêm em protesto para a rua, fardadas e de mala ao ombro. Na condição de operárias, de peças na engrenagem mas também no seu anseio burguês. E não largam a mala nem a farda por nada deste mundo. Por isso estou como elas, não sei o que pensar da morte do comandante. Ou se calhar não sei o que pensar de cada uma das coisas. Da morte e do comandante. E da morte do comandante. Da primeira tenho uma suposição, que há-de ser como a farda das operárias. Da segunda não sei se um anseio. Da terceira...só vejo que a história conta sempre a memória que mais nos convém. E por falar nisso, amanhã greve geral. Por ser domingo, ainda que Shilow me comece a mordiscar e a latir a partir das duas da tarde. Ele não faz greve. É cão e não faz greves. Nem vem para a rua como as grevistas, metade operárias, metade burguesas. Por isso Shilow nem pensa na morte do comandante. Se calhar farei como ele. N...

Muriel e Renato

Apesar de sereno o velho continuava a dizer sobre os caminhos sinuosos da vida e que estas coisas assim eram, imprevisíveis e incertas, inexplicáveis. Sobre a vida sabia que permanecia em mistério, disso não duvidava...Bruna, no entanto, nos seus olhos de víbora sabia de Renato, sabia de Muriel, sabia dos tangos cantados em decadência. Conhecia que em Buenos Aires também fazia frio, ainda que pouco e que o aconchego de uma cama era sempre o mesmo, que mudavam os rostos, os corpos mas ficava sempre o mesmo fedor a carne putrefacta, a fluídos corporais, a pecado e arrependimento. E que Muriel não era a mesma que cruzara aquela porta tanto tempo antes. Que a delicadeza do seu corpo, das suas roupas, dos seus cabelos, mesmo assim, carregados de terra, de uma camada de esterco sobre o requinte, não era a mesma da força bruta que se evadira no meio da epidemia. Que Renato ficara sentado sobre a mesa, pensando, em suspenso, contemplando os seus últimos dias. Que Buenos Aires ...

Para que a história de Muriel não fique mal contada

Porque não são apenas os sapatos lamacentos que importam. Ou reencontrar Renato, provavelmente o dono do chapéu. Só importa contar na medida em que a infelicidade foi tão real e precisou de cruzar o Atlântico, até Buenos Aires, para o perceber. Importa também porque há no espírito dos homens uma tendência para se acomodar a essa esperança de felicidade, como se o dia de amanhã trouxesse algo de novo ou surpreendente ou como se pudessem regressar, como o fez Muriel, ao lugar de onde afinal nunca deveria ter saído. Apenas porque a epidemia corroeu tudo aquilo que esperava da sua própria vida e a casa era demasiado frágil tornando uma caminhada pelo corredor numa constante incerteza. Era um facto, demasiada loiça a tilintar a cada passo no lobby, no corredor, na sala. Cada passo que retinia descobrindo uma nova transgressão, a ousadia que o corpo cometia ao atravessar um corredor inteiro de potes de loiça, passadeiras em chão escorregadio... E, no entanto, não foi nem junt...

Muriel, cronológica

Se Muriel tivesse devolvido o chapéu de feltro, tantos anos antes... Os seus sapatos de veludo, delicados não tocariam a lamacenta entrada do velho Império das Loiças. O seu rosto não iria colado ao vidro no caminho de regresso. Muriel, agora tinha este nome. Naquele percurso ainda era outro...A vala comum e o memorial às vítimas da epidemia, as lápides serenas e escuras e uma saída apressada Apenas levaria o chapéu consigo. A única recordação. Apenas para despoletar outras memórias e tudo o que não voltaria a ver. Mesmo que nos seus pequenos olhos, chorasse enquanto enfrentasse o palco, esquecendo, recordando, a velha casa, o estreito de amores-perfeitos por entre a terra. Bruna agora olhava-a com desdém. Ficamos aqui a apodrecer, balbuciavam os seus lábios pouco abertos, contraídos. Ficamos aqui a apodrecer com tudo isto...E estavam prostrados na sala, na velha entrada, com os móveis tapados, os quadros poeirentos, porcos que se cruzavam com as loiças agora baças e se...

Hoje

Posso prestar mais atenção a Isabel e Zacarias. A Leonel, o filho prometido. O sobrevivente intergaláctico.  Isabel deixou o seu ofício de taróloga, ao contrário de Sofia, para exercer em pleno a maternidade. Zacarias não ficou mudo como o outro Zacarias. Pelo contrário, continuou com a sua carrinha de alfarrabista, a atravessar as fronteiras proibidas do terceiro domínio. Por mais que lhe custe ter de parar constantemente no controle, certo é que tem as guias de licença para exercício de profissão sempre em dia.  Isabel, no entanto, apesar de ter abandonado o instrumento de trabalho, continuou a ter intuição e a ser capaz de captar sentidos onde provavelmente ainda serão uma potencialidade. Começou a olhar para Leonel e a ver os seus olhos de maldade... Acautelou-se da melhor maneira, recolheu ervas novas e perfumou a casa com terebentina.  Resta esperar. Leonel não é o prometido mas irá baptizar o prometido como o fez João. Contudo, num mundo perdido...

Aqueles dias em que...

Shilow parece estar sossegado. Faz bom tempo. Dorme na rua.  Aproveitei a ocasião para conversar abertamente com Rosa. Já chega de dolências, mulher! Chega de entoar  "Duélete de mis dolencias si algún día me has querido y enséñame a ser feliz porque infeliz yo he nacido."       Aldo não volta, como não voltarão outros tantos. É cruel a realidade de estar-se em parte incerta. Bem sei. Em todo o caso e, sempre o achei, o pragmatismo de Lídia, assassina, não lhe faria mal. Não nos mesmos termos porque não se poderão confundir as esferas. De dívidas e amor contamos sempre histórias paralelas. Ainda que as primeiras o sejam em nome das segundas, como o é em Rosa.    Vá...pense que o subúrbio não é assim tão mau. São apenas caixas de papelão amontoadas a acolchoar a condição humana. Dentro de paredes tudo existe.    Além disso, o cangalheiro também foi dar um passeio. À beira-mar, espero. Pode ser que por lá en...

Enquanto Caminhando

Do que vejo no mundo só sei que a passada é cega e incerta, E se escrevesse desordenadamente tudo aquilo que passa no subconsciente Sem prisões e sem amarras, pelo estreito corredor de existir, Manequins e peças soltas, Recusaria a condição de ilhéu, recusaria a condição de humano E pensaria… Quantos memoriais não desenhei a outros, A dedicação exclusiva a imagens de mártires Sem consciência do martírio que sou, Da voz de pendência que me dou Do guarda de negro que me persegue, Assim como Shilow o cão imaginário que me manda olhar para trás E ver o pó das minhas conquistas… E perceberia que, Sim, sou um sem pólvora e capital, Sem capacidade para desenvolver regras e sonhos Ou colocar regra nos sonhos E ordená-los como se fossem verdadeiros Ou Talvez seja apenas o operário esquecido da engrenagem, Adormecido no horário do almoço, Esquecido pela linha de produção e que, Como a crisálida que se submerge e afoga em tinto, Nunca passa...

A história de Raul

Foi feito um memorial a um operário desconhecido. Contei esta história vezes e vezes sem conta. De ausente que ficava à espera enquanto pela casa as tintas e os pincéis secavam. As telas reflectiam raivas criativas ou o sol da América Latina. Hoje sou eu que faço memoriais. Para permitir-me amar-te, apenas neste lugar. Apenas aqui. Onde eternamente seremos terra e fogo. 

Ainda que por vezes...

Chova e chore tudo aquilo que o cosmos escondeu no meu peito. Da alegria fica a memória, O velho cavaleiro que por fim, depois de onze anos me visitou E fico contente que tenha parado nesta estalagem no seu caminho e que me tenha trazido memórias de inocência e de mundo perdido....

Da Imperfeição

E da sua beleza, todos o sabemos.  Shilow hoje esteve sossegado. Dimitri apareceu aqui e ali, com o seu ronronar manso.  Não digo que não chorem mas, caramba, às vezes é demais. Porque tento lhes explicar que a imperfeição vem carregada de beleza, de subtilezas e que quando fugimos a elas iremos encontrá-las umas ruas mais à frente, nas esquinas afiadas da vida. Mesmo que disso apenas possamos contemplar um sorriso, uma noite de início de agosto e o movimento sereno de ser agosto, verão e leveza, quando Shilow dormia sob a latada e Dimitri ficava ali, dengoso, pedindo por mais... Mesmo que seja só essa memória e nada mais porque a imperfeição vem carregada de beleza e de subtilezas e a paixão, dolorosa Traz sempre um luar de imperfeição, com uma beleza que vale a pena contemplar.

Cala-te Shilow...

Que hoje já não te aguento a tristeza e o rosnar, que não quero mais o teu latido constante... Por favor, cala-te e deixa-me estar ausente Não me persigas tanto Não olhes para tudo o que faço Não estejas tão presente Cala-te Shilow que não te vou alimentar...

Chove

E enquanto ainda chove, Dalton pode chorar. Porque ninguém olha para pingos que chovem enquanto se chora... E o barulho abafa cada mágoa. Hoje foi dia para ir chorando e chovendo. Só isso. Até ao dia.