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Mensagens

A mostrar mensagens de outubro, 2016

Se chove aqui

Também chove no mundo deles. Chovemos todos com a mesma intensidade.  Nunca vi o cangalheiro a olhar tão fixamente como hoje. Será agora? Não sei, não lhe entendo os sinais. Rosa acabou por sair de casa, deixando mais um rasto de ausência. Ficou-lhe o cheiro, o temperamento, a tília amargurada que bebe pela chávena que menos gosto. Enquanto falou, o tempo todo, de casacos e de Lídia. Do facto de ter cometido três assassinatos. Fiquei farto da sua presença.  Confesso, no entanto, que agora sinto a sua ausência. Que agora sinto-a longe. Como por vezes sinto todos os outros. Shilow está irrequieto e rosna-me constantemente. Estou irrequieto e rosno-lhe de volta. Sim, sou um cachorro, um patife que foge da condição humana e se cruza no mundo animal. Mas que fazer do sabor a merda que os dias trazem? Uma mente atormentada será sempre assim. A de Dalton nasceu para ser atormentada, para fugir e correr até ficar sem fôlego. Puta que pariu. Dalton, o f...

Tenho algumas máximas

Enquanto Dalton. Não voltar ao lugar onde percebem que tomamos café sem açúcar. Parece que nos suspeitam a amargura, o desinteresse...a anormalidade. Soltar os braços quando não nos estão a ver. Ou apenas onde nos espreitam, como se secretamente nos quisessem ver, seres dançantes. Ou ao contrário. Falar sozinho pela rua. Para que percebam que o cérebro não passou de moda, como as calças à boca de sino. Ser ausente quanto a tudo o resto. Mesmo aos olhos do cangalheiro.

Rosa Fortunato

Decidiu passar cá a noite. Deixei-a ficar no quarto. De descrente tem pouco embora insista no seu ateísmo. Reza todas as noites. Daqui oiço o murmúrio. Só pode ser uma reza. Falou-me de Lídia. Viu-a de casaco aos ombros nesta rua. Sinceramente pensei que ainda cumprisse pena de prisão. Bem vestida, por sinal. Rosa não podia jurar se Givenchy ou Kenzo. Essas coisas são mais tocadas do que juradas. Riu-se. Pediu-me genebra. Dizia que o cheiro a aproximava de Aldo. Estamos todos a contar a mesma história? Cipriano virá de mãos dadas com Valquíria. Como é constatar isso quando Aldo se encontra fugido? Combinou um chá com Lídia. Têm muito para por em dia. Muito mesmo. Contudo, Rosa Fortunato nunca saberá da verdade. Assim como nunca se soube do paradeiro de Lídia, solteira. Ou de Cecília, prostituta. Por falar nisso...há muito que não sei dela. Talvez pergunte a Quino.

Sobrando fôlego...

Porque cada um deles movimenta-se sobre si. E cada um deles se conhece entre si. Andam no mesmo lugar, ligados por milhões de partículas. Protegidos pelo Arcanjo Miguel. Por Cahetel ou por outro qualquer... Cipriano ter encontrado o amor foi uma coisa estranha. Mas também o haviam feito Cidálio e Luís. Na praia. Porque destas ligações invisíveis a única para a qual não faltam teorias é sobretudo a do amor. Nada de novo...como Fabien e a sua aristocracia falida. Se fosse vivo ( é vivo e de saúde) mas ele sabe do que falo...casava-o com Myrtle Snow, antes de a deixar ser condenada à fogueira. Ou Afonso. Até Dalton. Com amor para contar.

Quando Cipriano sonhou em épico...

E conheceu o rosto do amor. Prometi, bem sei, contar a história de Cipriano. Sobrevivi a ele, numa falésia assustadora e com um computador muito abaixo dos seus recursos financeiros. Só não sei quando vim parar à casa de sua mãe. Ao mesmo lugar em que Valéria chorava pelos palhaços. Reconheci-lhe o pátio interior e a parede ao fundo com uma floreira. A sala sobre o comprido e as paredes amarelecidas pelo tabaco. O vendedor alertou-me para tal. Não me importo com histórias de nicotina nas paredes de uma casa. Precisava apenas de um lugar para recolher Shilow e estar, simplesmente...No que é inevitável recordar de Cipriano, Rosa Fortunato ou Cidálio. Três histórias tão diferentes. E ainda a de Leonel. A dos domínios que se degladiam em busca de poder. Não recordo quando conheci cada uma delas. Certo é que vão estando presentes como Shilow. Como Fabien que me faz chorar algumas vezes. Não ele, mas o seu amor platónico.  E a verdade é que de todos Cipriano,...

Para certas coisas há que estar sempre preparado...

Especialmente para morrer. Assim nos disse sempre o judaísmo, o cristianismo e todos os que se seguiram. Por isso contratei um cangalheiro. Só para o caso de me escapar a impressão da própria morte. Apenas na eventualidade de não haver tempo de escolher a roupa do funeral. Ele fica ali no pátio interior, olhando-me pelos vidros. É um olhar de ausência, reconheço. Outra existência não lhe foi dada do que aquela. De estar a olhar fixado, em Dalton e Shilow, enquanto espera para cumprir o seu ofício. Cumprirá um dia. Antes tenho de queimar livros, velas e outros objectos. Tudo aquilo que me possa identificar como o patife que fugiu à condição humana... Ou deixar tudo como estar. Emoldurar a Roda, olhá-la. Pensar nas suas voltas gigantescas. Pensar que o Universo esconde mistérios a que ninguém acede e que ao subir das escadas estará o Anjo... É inútil ficar à espera, disseram-me. Eu sei. Por isso caminho, pela noite, pelo dia, inspirado no meu bom amigo Cipriano (um dia, cont...

Uma sala para recolher

Projectei sempre um espaço de recolhimento. Sabia que um dia, o cão feroz que me acompanha, precisaria do envelhecimento de um tapete também velho, gasto e usado. Aninhei-o como fazemos com os sonhos mais queridos. Afinal, esteve sempre lá, nos momentos de silêncio, nas viagens de carro prolongadas, com as lágrimas a transformar a chuva em tempo, escasso, perdido... Shilow, chamei-lhe, às tantas. Como do filme, do menino, do cão com dono que afinal descobriu outro dono. Aninhei-o apesar das amarguras. Que contam estas quando tempos um cão velho aos nossos pés a suplicar por misericórdia? Nada contam. Apenas aquele conforto de encontrar uma luz baixa e quente, o crepitar de uma lareira e a constatação da brevidade de cada momento. Afinal, todas as vezes que chorei foi junto de Shilow. Junto do seu rosnar feroz, do seu latido que me trazia a cabeça em pedaços. Não creio amanhecer com a sua ausência. Quando a luz entra pelas portadas e o pátio interior deixa ver os vasos partidos,...
Não é desta coisa de andar triste ou de pesar o mundo segundo as suas circunstâncias. Tão pouco é de ter a cabeça a mil, no final do dia, mesmo no recolhimento de um candeeiro. Porém, de senti-lo a fugir debaixo dos pés, com a sua leveza matreira, o seu olhar profundo... Ainda há dias me perguntavam, que é do que foi leve? Leve, por breve. Porque há uma empatia do mundo em geral naquilo que é leve e, quando a energia se revolve e revolta e o mundo paira sobre a cabeça, há uma parte que foge, afugenta, escapa... Subimos o escarpado e não acompanhamos mais o que escarpa na nossa frente. Escarpa, escapa...foge, muda o seu registo. Acompanha de longe no seu vislumbre que se fecha, fortaleza.  E a coisa de andar triste é só de saber quando andamos ao revés do mundo. Quando o interior desacompanha o exterior e, devia ser sempre sábado para termos festas de aniversário e a leveza de estar perdido no meio do mato sem ninguém à espera.  Pouco se espera ao sábad...