Projectei sempre um espaço de recolhimento. Sabia que um dia, o cão feroz que me acompanha, precisaria do envelhecimento de um tapete também velho, gasto e usado. Aninhei-o como fazemos com os sonhos mais queridos. Afinal, esteve sempre lá, nos momentos de silêncio, nas viagens de carro prolongadas, com as lágrimas a transformar a chuva em tempo, escasso, perdido... Shilow, chamei-lhe, às tantas. Como do filme, do menino, do cão com dono que afinal descobriu outro dono. Aninhei-o apesar das amarguras. Que contam estas quando tempos um cão velho aos nossos pés a suplicar por misericórdia? Nada contam. Apenas aquele conforto de encontrar uma luz baixa e quente, o crepitar de uma lareira e a constatação da brevidade de cada momento. Afinal, todas as vezes que chorei foi junto de Shilow. Junto do seu rosnar feroz, do seu latido que me trazia a cabeça em pedaços. Não creio amanhecer com a sua ausência. Quando a luz entra pelas portadas e o pátio interior deixa ver os vasos partidos,...