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A mostrar mensagens de 2016

Sobre cada lugar

incerto.

Dia de Chuva

Porque hoje não há luz de Vénus. Apenas um lacrimejar constante. Porque as ausências prolongam-se e com elas a incerteza. E a cidade inunda-se...

Treino

Enquanto o inspector interrogou a mãe, Jesualdo fez duas sequências de 40 burpees, duas sequências de 40 agachamentos, duas sequências de 40 abdominais. A empregada do mar que ficara, por esquecimento, retida na cena do crime estava corada. Abanava-se com um leque improvisado de guardanapos. Bebia água. O inspector parecia desconcentrado com o impacto dos saltos.  A mãe estava confusa. Carlos olhava Jesualdo com o mesmo rubor da rapariga atrás do balcão. Só que aquele era moreno e não se notava tanto.

A mãe está aflita

Pois claro que está. Não toma o comprimido para a hipertensão há dias e não sabe de Lia. Também não sabe o que está a fazer ali. Umas vezes recorda-se de Lia, outras nem por isso. Responde só, Sei sim é minha filha ou então, Não estou a ver. Alguém que deva conhecer.  Fica atordoada. Quer comer alguma coisa, avozinha? Pergunta o inspector que continua com o seu ar plácido. Não queremos que passe mal. Isto são só umas formalidades. De certeza que a sua filha está bem. Olhe, quem sabe não foi passar uns dias ao estrangeiro com algum namorado.  Carlos arregala os olhos do fundo. A mãe ainda fica mais aflita. Não diga isso. Sussura, aquele estafermo vai casar com a minha filha. Aqui entre nós não gosto dele. Depois voltou a esquecer quem era Lia mas sempre com a certeza de não gostar de Carlos.

A tal de Lia

Quem? Ah sim...vagamente. Assim por alto. Mas não conhecia não. Jesualdo fica nervoso perante a inquirição. O inspector apesar de tudo tem uma aparência benevolente.  Não trouxe documento de identificação. Não trouxe.  E tem documento de identificação? Tenho, claro. Em casa.

Olhar Cúmplice

"Todos somos cúmplices porque nos calamos". Certo é que após o desaparecimento de Lia, o café que habitualmente frequentava foi compulsivamente encerrado pela polícia. Compulsivamente (compulsivo, que compele). Rodearam a esplanada de fita policial e mantiveram dentro daquele espaço Carlos, Jesualdo, Carlota (colega administrativa) e até foram buscar a pobre mãe para prestar declarações. Tudo naquele local. Num café triste, perdido no meio de um bairro residencial.

Aturdido

Nestas coisas há que ficar perturbado. Lia, solteira, de hábitos constantes e previsíveis (no fim de contas todos os temos). Vista pela última vez a pedir um café e um pastel de nata, no mesmo lugar de sempre, rodeada das pessoas de sempre. Especialmente Carlos, perímetro abdominal de cerca de cem centímetros, calças quase no pescoço, camisa por dentro. Solteiro, prometido em casamento a Lia. Sexualidade reprimida.  Apesar de aturdido prefere olhar para Jesualdo, instrutor de ginástica no Health Club que Lia frequenta, mais por obrigação do que por efeito.  Jesualdo com as suas pernas depiladas e o seu acento sulista.  Mas está perturbado. Não sejamos injustos. Está de facto incomodado com o facto de Lia estar desaparecida. Telefona para o trabalho, para casa e para o telemóvel. Não atende. Não sabem dela. Foi vista pela última vez naquele lugar.  Pobre Lia. De hábitos desconhecidos a partir das dezanove horas. Quando sai do ginásio, ...

Fascínio

Por estes momentos em que podemos usar uma máscara diferente da que habitualmente usamos. E podemos nos descomprometer. Só para celebrar e fingir que gostamos de bolo de aniversário. E que nada na condição humana nos faz qualquer tipo de confusão.                                             Googie Withers playing Katharine Susannah Prichard, Shine, 1996

Pode ser só de mim

Porque o último bolo de aniversário que fiz queimou.  Nunca gostei, no entanto. E não me lembro de alguém alguma vez ter dito que gostava. Sim, dizem, está muito bom. Mas procuram disfarçar o arrepio. Contorcem-se porque estão a ser alvo de uma experiência química. When did you start baking from Scratch?  It's not Scratch, mom! It's new Pillsbury Plus. A yellow cake this firm could only be from Scratch. It's not Scratch, mom! It's new Pillsbury Plus.  A yellow cake this rich and yellow cake this moist could only be from Scratch. It's new Pillsbury Plus. The Plus is pudding, "pudding" right in the mix to add that moistness! New Pillsbury Plus, han? Looks like Scratch has find its match!  

Ou então não

Não sei. Não gosto de mandar ninguém para certos lugares. Bem podem ir por si. Havia alguém que dizia isto. Tenho quase a certeza. Quase. Como em tudo o resto. Quase a chegar, sempre quase a chegar. E hoje quase cheguei mas começou a abafar este tempo sul e  deixei-me ficar a contemplar. A falta de movimento. Duas moscas que entraram. Moscas e testemunhas de jeová. Como daquela vez em que vieram e passaram a vir todas as quartas feiras. E perguntaram-me como conhecia o Bem? E eu disse-lhes, conhecendo pois. Porque o bem não se conhece, assim como não se conhece o mal. A menos que se passe por um e outro e eu tenho evitado confusões e grandes filas, multidões e emaranhados. Por isso não conheço. Não conheço, pois. Sei que existe. Como existem tantas outras coisas. Como existe bolor e tempo sul, justiça e amor. Ali, ao longe, onde podemos contemplar. Mas bem e mal não conheço. Ouvi falar. Mas pessoalmente não conheço. É como digo, não gosto de me meter em ...

Tempo Sul

Ou parecido. Puta que pariu. Reabrimos livros e encontramo-los com bolor. Cheiro a mofo. Já não se pode ser diletante? Que é feito dos diletantes?  Morreram todos com esta pressa capitalista. Já não se pode ser diletante sem que as coisas se acumulem de bolor. Puta que pariu o tempo sul. E a bom rigor os capitalistas não diletantes. (Que é a mesma coisa). 

Continuar a sul

Por mais umas horas. Porque não se sabe quanto tempo durará tudo isto.

Lista de Trabalho (III)

Porque hoje passei o dia a sul. Aliás, tenho passado os dias a sul.  Só para ordenar o caos, arrumar gavetas abertas.  Perguntar-me, És real? E todos os que gravitam aqui são reais? Às vezes confundo-me e é como se tudo fosse apenas ilusório. Isto nada tem que ver com angústias. É só mesmo porque preciso desse ponto de partida.  Com o que sonhava há uns anos e com o que a realidade me traz. Agora. Porque tem trazido.  Hoje apanhei Shilow a rosnar-me. Deve ser por isso. E tenho o cabelo colado ao casco e a barba desalinhada. E um conjunto de pendências com os seus sinais de alarme Mas foi como se de súbito as pendências passassem a ter pouca importância. Ainda que me sinta forçado a fazer listas de trabalho, como esta. 1. Fechar gavetas...É impossível dar pernas a uma cómoda se as gavetas estiverem escancaradas.  2. Trancar algumas. Como as das camisolas "viscoelásticas". Tendem a acomodar-se demasiado. Outras l...

Antecedências

(Ao inverso)                                                                                                                                                                   ...

Intervalo

Para me aborrecer com, Cafés que não vendem cigarros. Montras que têm objectos oxidados pelo sol, cores pálidas e pouco apelativas. Senhas de wi-fi sem acentos e cedilhas... Tudo circunstâncias que mais valiam não ter sido.

Quino, o sentido

Isto já não faz sentido, murmurou. Galgar estas águas fétidas e estes destroços flutuantes de tudo aquilo que ficou acumulado nos subterrâneos.  Dolores continuava a acenar da varanda. Numa memória de varanda. Tal como continuavam a jantar numa memória de janela funcional com vista para uma luz celestial. Amanhecera só porque já era hora de amanhecer. O céu continuava escuro como se fosse noite. Porque era noite apesar de ser dia. Dia só por isso. Por haver um calendário de existir e se definir que a urbe era assim, compartimentada e circunstanciada.  As águas subiam. Estranho não haver gente . Havia, no entanto. Outros que também procuravam sobreviver com braçadas longas e músculos insuflados. Lábios roxos de frio, olhos pesados de se ter contemplado a noite atrás de Alcipe e um bar subterrâneo, dos que fugiam à condição humana. Isto já não faz sentido! Todavia era escusado gritar que não fazia sentido porque Julian já havia caído por um redemoinho...

Férias

Mesmo de férias, O corpo mantém o seu quotidiano. Porque está lá a gravar num disco rígido, memórias que são armazenadas junto de outras de quando não se está de férias Apesar da ilusão (temporária) de que o espírito é livre como o corpo e a luz reflecte o andar com os braços soltos e o sorrir para um abismo (Profundeza) Ainda que só se saiba disso uns passos mais adiante (meia vida, meia morte) quando o Inverno se instala, definitivo e os ossos gemem, tremelicam como loiças frágeis num soalho flutuante E a cidade inunda-se, de água pútrida e fétida porque nela viveram acumuladores, esbanjadores de condições humanas corpos vestidos do avesso, com os lábios mordidos e as cordas vocais cortadas, E foi tudo vendido como a única verdade do mundo, da cidade, do conjunto de prédios funcionais onde pudemos arrumar a tralha que somos em compartimentos separados, fechados, estancados excepto quando se está de férias e há lugar para procurar o reverso e sentir, pela pr...

Como palavras que não existem

Em dicionários mas existem, de facto, incorpóreas, a partir do momento em que são proferidas e se lhes apreende o sentido.  Como todas as outras que, apesar de gastas, continuam a ser apreendidas e repetidas e a não querer significar mais do que aquele sentido em que foram apreendidas e repetidas. Com as finalidades a que se destinam.  Ou como o sentir que não se explica por palavras mas que existe porque se lhe apreende o sentido. Assim como estar no mundo, num plano de banalidades e trivialidades quotidianas, ser Julho, o tempo estar quente e percorrer-se uma trajectória que apesar de diferente (por ser Julho e se estar de férias), traz a normalidade de um corpo que percorre a multidão e cujo sentido é apreendido por palavras que amansam e cativam, como Encanto e Beleza e o sentido é apreendido para mais tarde, nos primeiro raiares de Inverno (de hemisfério norte) se lhe retirar esse sentido apreendido e sentido Gritando, essas palav...

Se

Facto: Quino ficou à margem e encostou-se a um painel comum. Circunstância: Porque estava atrasado e precisava de atender uma chamada de trabalho e o corredor afunilava-se de gente frenética. E o Resultado: Foi a transformação, a inversão do mundo e uma cidade inundada. Neste caso circunstância acompanha facto mas não produz o resultado esperado (sentir o frio de um painel de azulejos).

Para repousar os olhos

Porque outros foram deixando a sua melodia no eterno, amando cada lugar comum e inferior. Amando, simplesmente. A humanidade e as suas veredas íngremes. 

Histórias (algo) mínimas

Como a de Cecília poderiam ser contadas em poucas linhas. Com poucos floreados ou recursos estilísticos, apenas com a interjeição da aspereza da (puta) da vida. Claro que poderá haver espaço para a celebração de alegrias momentâneas. Aniversários, momentos de reunião, beijos finais.  Das realidades mais pequenas, quotidianos (fodidos), preces a figuras de mártires, sonhos que voam com os clássicos do cinema, um laivo de humanidade, de dor e de corpos (nesta sequência) percorre uma passagem densa. Como Violeta Parra relembrou (e parte disto valerá a pena se for à sua memória), se um dia tivesse de escolher uma das suas artes ("artes"), escolheria sempre as pessoas.  Importa, por isso, que Cecília viva num subterrâneo muito embora não o seja na mesma cidade de Quino e que a sua história seja de um aborrecimento letal, de uma monotonia diária e previsível num subúrbio confuso e esquecido.

O ofício

Terminava tarde. Sempre depois da meia noite. No dia vinte era dia de receber. Esperava paciente na fila. Cheirava a homem e a sovacos. Notava-o por cima do cheiro a lixo urbano. Habituava-se rapidamente a respirar aquela mescla de odores penitentes. Era o seu ofício diário. De segunda a sexta, a partir das seis da tarde.  Sabia que o patrão diria a mesma coisa de todos os dias vinte de cada mês. Perguntava, Porque recebo menos? Porque és mulher, respondia. Mas a lei obriga! A minha lei é outra e dá-te por contente.  Os colegas diziam, Não te aborreças! Vamos ali tomar um copo, pagamos nós. Sabia o que queriam. Não ter uma desculpa para tomar banho e poder cumprir o seu ofício másculo no meio do cheiro a lixo.  Tenho de ir para casa. Espera-me o meu pai que é doente. Que pena, Cecília! Assim nunca vais aproveitar a tua vida. Tem de ser, tem de ser...até amanhã! Amanhã há mais...Pois, lá terá de ser.  O pai esperava-a sempre na mesa da cozinha a v...

Por isso

Só sobram, por contar, histórias sobre dívidas e amor. Sobre paixões e culpa.  Tudo o resto é comum, como barbas e sapatos contrafeitos.  Tal como em Cecília que abandonou o seu ofício na recolha de lixo para salvar a sua irmã que tanto amava. (Um pouco de faca e alguidar, um pouco de Rosalinda e outros enredos insuflados de botox e silicone). Salvar de dívidas. Salvar de uma dívida por amor/ódio. Das meias de vidro rotas e ruas largas onde na noite o visível é arrumado e esquecido. Remetido para o lugar (comum) da ignorância. Porque o que não pode ser visto... Mesmo que esteja ali, junto ao mesmo candeeiro. Contemplando o mesmo movimento de carros e luzes de natal. Da falta de empatia que a desigualdade trouxe.Ou será ao contrário? Do código genético para um coro de marginais. E destes para outras tantas ruas largas, repletas do artificialismo do conforto moderno, da memória selectiva.  Como Cecília que agora as percorria em aceitação do se...

Merdas Espirituais

Sem mais, porque por vezes só dá para constatar sem verbalizar.  "En la vida hay amores que nunca pueden olvidarse. Imborrables momentos que siempre...Ah!Que amargada me quedé después que hablamos Te presté toda la plata que tengo trata de comprenderme  (...) Quanto hace que somos amigas? Mucho. Toda la vida" Mujeres Asesinas, 2ª Temporada, El Trece Yiya Murano, Envenenadora

Luz celeste de uma janela funcional

Havia uma memória de lusco fusco. Um anoitecer de azul gélido com a palidez da claridade ainda mal escondida. Era Setembro, provavelmente final. Faria diferença se fosse Agosto. Não existe uma cor celeste daquelas em pleno Verão nostálgico. Também não era Outubro porque nesta altura já as águas tormentosas começavam a inundar a cidade. Dolores usava um vestido bastante justo. Quino não sabia se o invejava ou se desejava as suas formas coladas ao tecido. Ela também não sabia se o queria. Jantavam para falar de mais uma desilusão amorosa. Que é o que fazem duas pessoas desesperadas por encontrar o amor, jantar sobre angústias sentimentais. Ou só uma delas, porque Quino não o procurava. Alcipe, talvez. Ainda que sob um manto de incógnitas. E Dolores só fazia porque era voluptuosa e morena.  Jantavam descobrindo-se porque à flor da pele eram duas pessoas do sul. Imigrantes eternos numa cidade funcional, um pouco fria, um pouco azulada. E não tinham outra forma de ser senã...

Como Mattia Pascal

Já não sabia quem era. Somente quando alcançasse o apartamento e montasse novamente cada uma das peças de O Milagre da Atmosfera. Tardava, porém, a chegar. A cidade inundada tornava o percurso cada vez mais complexo e com o cansaço que o corpo sentia, surgiam as trapaças da mente, os dilemas. O amor por Dolores cuja face em lágrimas insistia em contemplar os seus olhos. Precisava de parar. De pensar. Procurar, apenas com base em suposições e deduções, o caminho que a trupe de palhaços faria. Viriam de terras soalheiras. Vêm sempre de terras douradas e de tendas de circo montadas em campos abertos. Ou do campo da largada dos balões. Ali riam, onde eram menos precisos. A cidade afundava-se com o seu próprio pranto. Gritos abafados continuavam a transpor cancelas drásticas e barulhentas. E os palhaços ficavam no destino final, a rir da desgraça alheia. Colados aos seus postiços de primavera e festas de aniversário. De contemplações instantâneas sobre a felicidade. Teri...

Cursos de Água

Sobre cursos de água, correntes misteriosas que nenhum matemático na história da humanidade logrou resolver, pessimismos e absurdos. Na história de Quino existe um curso de água. Mais do que um rio, uma cidade inundada pela ausência de soluções para dilemas humanos.

Where's my stuff?

Em duas histórias distintas cruzam-se os palhaços. Porque o tempo de Quino precede o de Cipriano. Os palhaços que assustaram Valéria eram os mesmos que tinham as pinturas das Hespérides. Valéria chorou porque era médium e aqueles palhaços, da festa de anos de Cipriano, traziam consigo memórias antigas, de chuva e tormentas. Cipriano não acreditava em poderes mediúnicos. Porque era matemático e metódico. Por isso não tem problema aproveitar adereços.

Where are the Clowns?

Por Egle, Erítia e Héspera. Quino teve de encontrar alguns segundos para parar no meio da tormenta. O corpo cansava-se e precisava de pensar, estabelecer a estratégia para chegar ao apartamento. Recordou-se que algumas horas antes Alcipe cantava, a versão castelhana, "triste final para un amor...que vengan los clowns".  No camarim recebeu uma nota. A trupe de palhaços tem as pinturas das Hespérides. Só elas salvam. Onde estão os palhaços?

Lista de Trabalho Não Identificada

Referências: Tropicalismo, claro. Gal e Caetano. Porém, antes do carnaval. "Nessa noite, Pwyll não foi capaz de tirar aquele mistério da cabeça. Seguro de que a cavaleira tinha algum motivo para estar ali, regressou ao monte no dia seguinte, determinado a ser ele próprio a seguir a mulher. No entanto, também ele não foi capaz de a apanhar, quer galopasse a toda a velocidade, quer acompanhasse aquele despreocupado passo de trote. Frustrado e ciente de que o seu cavalo estava a sofrer, gritou na direcção da mulher." "Histórias e Lendas Fantásticas dos Celtas" Lendas de Gales P. 183 Planeta Editora Lisboa Maio de 2009 "Um actor empresta tanto mais força a uma personagem trágica quanto mais se precata de exagerar. Se é comedido, o horror que suscita será desmedido.  A tragédia grega é cheia de ensinamentos a este respeito. Numa obra trágica, o destino faz-se sempre sentir melhor sob os rostos da lógica e do natural. O destino de Édi...

Lamento do Índio

Cruzou grande parte da água que subia cada vez mais. Já lhe doíam as pernas. Estava enregelado.  Como poderia amar Dolores? Como poderia amar Dolores sendo também Alcipe? E, no entanto, Dolores amava o seu rosto esborratado. Os lábios escarlate a se transformar em algo maior, ensanguentados... Para se aquecer recordava o dia soalheiro. O dia em que sentado no muro do jardim zoológico era já Outono.  Caíam as folhas, como sempre caem.  Fazia um certo calor temperado por uma brisa serena. Dolores estava ali ao seu lado com o seu perfume floral. Dolores estava ali, E não saberia do seu reencontro. Porque continuava a cruzar a tormenta sem saber, também, se chegaria ao metropolitano. Ou ao apartamento. Ou se Julian teria pintado um renascer de sol como naquele dia em que, apesar de tudo, era já Outono. E os terraços pudessem passar a ser como caves. E as caves como terraços. Naquele campo verdejante de...

Dolores apareceu a acenar

Do seu prédio. Que era um dos poucos que tinha varanda. A sua juba exuberante, encaracolada ensopava-se. Acenava frenética. Reconhecia Quino. Finalmente reconhecia Quino.  E os seus lábios escarlate deixavam cair a tinta e o rímel dos olhos. Com o cabelo curto, molhado. Preto como eram novamente os seus olhos. Era Quino, atrás do borrão de tinta que a chuva procurava apagar desenfreada. O único homem que amara verdadeiramente.  O único homem que ainda amava, apesar da permanente transmutação.  Continuava a acenar e Quino procurava agora chegar lá. Gritava, Deixa só a maré subir que já chego aí. Depois lembrou-se que se a maré subisse à altura da varanda de Dolores, já não conseguiria chegar ao metropolitano. E se não chegasse ao metropolitano não chegaria ao seu apartamento funcional onde estavam os azulejos. E nessa altura já não seria o seu apartamento funcional mas um destroço flutuante nas águas que a deusa chorava.  Por iss...

God Almighty

No final da noite (no que era nocturno num subterrâneo) Quino e Alcipe despediram-se com um beijo na face. Chovia, finalmente, do lado de fora.  Na cabeça ainda latejava música alta e um rasto de álcool. No corpo o desenvencilhar de danças e contra danças contidas entre braços e pernas, no percurso reprimido no sistema venoso, nos músculos, nas vísceras. Que tudo vibrava ainda... Chovia, finalmente.  Uma chuva drástica. A levantar a poeira que o chão subterrâneo acumulara. E chovia intensamente ensopando os subterrâneos, as caves gradeadas. Em breve, teriam todos de subir aos terraços. Procurar o campo verdejante ao fundo, guiar-se por balões de papel longínquos. Já chovera na noite toda. O Andrajosa é que o abafara. A constatação, no entanto, era de como se chovesse pela primeira vez em muito tempo. Porque os gradeamentos ficavam submersos e toalhas de pano esticavam-se, insufladas, pela força das águas. Uma jarra florida passou pelos joelhos de Qui...

Sing if you Like!

Até em Juan L. Ortiz Sobre el vapor de sangre, sutil, sutilísimo, cantemos. Cantemos y esperemos. (...) Sobre la tristeza humilde, profunda, de estos campos, a pesar de su gracias, cantemos. Con todas las criaturas y las cosas; con las criaturas ligeramente aún agobiadas —¿por qué sueño de sangre?— cantemos." Assim como Quino e Alcipe. No Andrajosa. A fugir de um subterrâneo lúgubre. Mesmo que à porta estivesse o mundo inteiro prostrado com a sua crueldade. E os prédios voltassem, novamente, a se asfixiar. 

Drum Boogie

Para começar a noite. E o swing ajudar a libertar os movimentos braçais. Quino não era musculado. Tinha no entanto o desajeitar de todos aqueles cuja musicalidade se contém nos seus pressupostos de seriedade.  E Alcipe era leve e espontânea.  Ao som de Drum Boogie Woogie!

Last Call

Os subterrâneos nem sempre eram lúgubres. Por vezes desenhavam-se em espaços de imaginado e tornavam-se locais agradáveis, com Jazz e luzes baixas. Burburinhos de conversas banais. Gente sentada ao fundo descontraindo os seus percursos de vazio. Como o Andrajosa. Um pequeno bar desses com música de fundo e candeeiros. Onde Alcipe poderia cantar. E Quino apreciar (de dentro) aquele movimento de seres que se movimentavam numa cadência menos pesada, mais espontânea.  No placard à entrada, anúncios de permutas. Porque apesar de ter Jazz e candeeiros era um bar de travestis. Daqueles onde seres que tocaram outros painéis (havia vários, pintados por Julian) podiam actuar. Ainda que por vezes tivessem de trocar as 23h30 pelas 04h00.  Porque enquanto não se alcança o campo da largada de balões o melhor é aproveitar estes lugares subterrâneos de existir, momentaneamente. Lá fora chove e os terraços têm demasiados ventos cruzados. E Quino recolhe-se naquele vestido ...

Banda Sonora

Canção de Alcipe, Carlos Paredes. Para que outros nos despertem e nos relembrem que tudo isto existe porque existe algo que não fica contido. Como o vento que nos sacode num terraço. Como tu, Quino e tu Alcipe, Num painel frio

O Espelho

De Alcipe para Quino. Como se subitamente se alterassem os planos e agora te pudesses chamar assim. Alcipe. Para lhe dar uma nova vida, ainda que emprestada, porque toda a sua dor rebentou com um balão de papel. Agora sim, Alcipe, no campo verdejante e fora dele. De Quino para Alcipe quando o mundo esteve no outro lado.

Alcipe

E Quino, ao fundo desta cidade e das suas ruas estreitas. Longe mas nem tanto, dos prédios funcionais e de passagens aéreas, existe um campo verdejante de onde poderás ver a largada de balões, Somente para crermos que existem almas dos que partem e que vão no sentido celestial. O espaço é tão aberto e sopra uma brisa tão fresca onde Alcipe, por fim, se encontra em paz. Encontrarás, por lá, a razão de termos nomes e uma identidade e como ambos apenas nos são emprestados enquanto sobem os balões e alguns se dispersam e rebentam porque assim teria de ser, ao longe onde não há sufoco  E do terraço no trigésimo andar vemos as luzes como se  Um laivo de esperança e de felicidade estivesse naquela linha imaginária de horizontes que vemos apenas pintados nas telas e nos painéis de uma cidade sombria e suja Ou carregasses nos teus lábios finos e melancólicos a cor púrpura de se vislumbrar a emoção há muito perdida.

Light the Candle John

Quino, tu tens o Milagre da Atmosfera! Porque por mera circunstância ficaste à margem e tocaste no painel. E este abriu-se para um mundo de transmutação.  A noite, porém, é longa. A noite da transformação. E gostaria que tudo voltasse atrás porque tudo passou sem que tivesse dado conta e agora olho-me no espelho e já não sou Quino o de olhos profundos, monocelha e cabelo curto. Sou agora algo de indefinido e desconhecido. Um rosto que se vai tornando delicado e um pescoço delgado que não consegue segurar tudo aquilo que enquanto Quino pensava. E os meus lábios tornaram-se mais finos e delicados e agora pinto-os como se me sentisse impelido a fazê-lo.  Isso é a minha noite. Não saber exactamente qual o sentido da transmutação. Estar às cegas por estar ao revés de tudo o que fui. Caminhar pelos mesmos lugares e sentir as cancelas do metropolitano abrir com a mesma força perentória, isentas de qualquer destino ou consideração, que não aquele. E eu fico ali a percorrer d...

Good King Wenceslas

Ideias repetidas, Ódio ao Natal, Memoriais a Operários Desconhecidos, papel celofane, casas esburacadas, pombos despedaçados.  Só para relativizar, Memoriais a Pombos Desconhecidos. El Palomo, Violeta Parra.  A história foi a mesma e não a encontro em lugar nenhum. Provavelmente já se encontra extinta.  "1541, Em Memória de um Operário Desconhecido" "Desenharam-te o rosto no memorial. A mesma homenagem de sempre à tua partida sorrateira. Apenas pelo silêncio. A tinta secou do teu rosto. Pingou no soalho velho desta casa. Azul Anil. O que anuncia sempre a tua partida e a certeza do regresso. Fizeram-te, no entanto, aquele memorial. Como se soubessem do não regresso. Aqui, ao longe, no quarto que reservavas para raivas criativas há, porém, uma tela inacabada. Um sol ténue sobre a praia. Sei o que isso significa. Que um dia a virás terminar e me encontrarás aqui, como sempre, a fingir que tudo é o transtorno de volta...

E Quino

Fosse finalmente capaz de pintar os lábios de cor de sangue e sacudir no vento de um trigésimo andar tudo o que o rés-do-chão tornava opaco e as plantas artificiais, made in China, tapassem a verdadeira luz que a deusa traria quando terminasse de chorar os seus cabelos No momento em que sonegasse à estação o painel maldito que a todos aprisionava.

Festa de Condóminos

Para que possamos vestir a alma sobre o corpo, de vez em quando. No terraço, com gambiarras coloridas e finais de tarde,  Pedindo, ainda assim, que não chova enquanto andamos de fora para dentro e meses depois tenhamos a nostalgia  De terraços descobertos onde fomos tudo o que somos ao contrário da multidão em movimento peristáltico e sacudimos a roupa interior Antes que chova E o que somos apodreça como as plantas que apanham a luz de meio estore aberto.

No rés-do-chão

Todos temos (e aqui começa um certo sentido de pertença) vidros opacos. Na cave, grades de ferro A meio, estores meio abertos (para as plantas apanharem luz, sobre um estrado) e no último andar um terraço descoberto, Onde todos usamos cuecas que foram estendidas e sacudimos tudo o que nos foi possível esconder.

"What If"

Se até numa grande cidade pessoas conhecidas se cruzam, (Em circunstâncias pouco prováveis) E andam sem destino certo porque o destino não pode ser conhecido ainda que se desenhem metas e horizontes, traços meramente imaginários e, Nas suas malas carreguem as suas memórias (o ar, contido em frascos de vidro) e os escassos pertences que a vida permite ter (ou que se permitem ter), Como poderia Quino ter a sensação de estar a ir na direcção errada? Porque o painel da estação de metropolitano estava lá para que todos os vissem e apreciassem, como chorava sempre a deusa os seus longos cabelos sobre a cidade azul e cinzenta, E a multidão caminhava, inevitavelmente, em direcção às cancelas (que eram de entrada e de saída) como o fumo que procura a luz, enfileirando-se, denso e impenetrável, Sendo certo que ninguém altera a sua morada para a estação de metropolitano ou para uma carruagem suja, desenhada para empacotar e empilhar e, O espaço e...

Porque

Noites sem lua trazem sempre alguma maldição. Quando se tornam visíveis               Vénus                                                                   Marte                                         Saturno                              ...

"Llanto de Luna"

Numa noite sem lua podemos ver                           Vénus                                                                   Marte                                         Saturno                       ...